quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Yourghaki Georges Fahd

Yourghaki Fahd nasceu, provavelmente, em 1924, na cidade de Inghzik, hoje chamada de Gassanieh, na Síria. Ainda jovem, ele e sua família, de origem cristã ortodoxa, mudam-se para Latakia, ou Latquie, no litoral Sírio e bem próximo ao Líbano. Prestando serviço militar obrigatório no exército francês, Yourghaki transfere-se para Beirute - Líbano; conhece Laurice, que é sua prima de segundo grau e casam-se. Foi alfaiate de alta costura e militante político. Em 1958, teve que fugir do Líbano e não podia ficar na Síria, pois seu partido político havia sido proibido em ambos os países, então resolveu migrar para o Brasil, deixando Laurice com três filhos, a quem mandaria buscar depois. Vai para Governador Valadares encontrar-se com um amigo que sabia que poderia ajudá-lo a se manter e estabelecer. Onze meses depois, em 1959, Laurice migra para o Brasil com Claude, Suria e Saad, acompanhada de sua irmã mais nova Alice, que posteriormente regressaria à Beirute. 
No Brasil, o nome Yourghaki, de origem grega, acabou sendo traduzido na documentação, ficando Yourghaki Georges Fahd. Dai em diante, seria conhecido como Seu Georges, ou Seu Jorge. 
Moraram todos em São Vicente.  A família aumenta, nasce a caçula Aliçar. Ficam no litoral paulista até o final da década de 1960, quando então mudam-se, para São Paulo, e por mais de uma década moram no Bairro do Pari e na Vila Guilherme. Yourghaki era um trabalhador incansável. Teve loja na Rua Oriente por muitos anos, onde cortava e costurava os próprios modelos que vendia. Mas também comercializava produtos de fabricantes maiores do Brás. Pegava amostras de calças, shorts, blusas e levava para a Rua da Alfândega, no Rio de Janeiro, ou Petrópolis, onde teve "freguesia" até a aposentadoria. Ia algumas vezes para lá de carro, e voltava com um engradado de cerveja Bohemia. 
Sua casa foi sempre cheia, sempre ponto de encontro de amigos, companheiros de partido e família. Laurice aprendeu cedo a cozinhar, principalmente porque tinha em casa um homem extremamente exigente com a comida. Se almoçava em casa ou na rua, sempre tomava um drinque antes, podia ser até mesmo um rabo-de-galo. Mas, quando podia pagar, e trabalhou bastante para poder fazer muito isso, preferia um uísque. E uma soneca depois do almoço. Em meados da década de oitenta, mudam-se para uma casa própria no Planalto Paulista.
Yourghaki era um homem orgulhoso, extremamente vaidoso e sempre bem vestido com ternos sob medida, que cultivava uma rotina rígida, herdada talvez de sua vida militar ou de seus pais, dos quais falava pouco. Sua família estendida foi formada por dois genros sem familiares no Brasil (um deles meu pai), um terceiro falecido muito cedo, e uma nora que também já havia perdido os pais. Desta forma, foi criado seu pequeno patriarcado, com a mesa sempre cheia de filhos e suas famílias.  Estendia a rigidez no trato com todos. Porém tinha grande senso de humor, e gostava de aconselhar as pessoas. Sempre contava piadas ou "causos", e perguntava a mim ou ao meu irmão "quantas namoradas você tem? Só uma? Coitadinho!". Era praxe que ele iniciasse as crianças, ou bebês, com pequenos goles ou mesmo gotas de sua bebida, o que deixava as mulheres da casa malucas. Quando marquei a data do meu casamento, ele chegou ao meu ouvido e disse: "Eu tenho raiva de quem casou antes de mim, e tenho raiva de quem casou depois de mim". Eu perguntei o porquê, e ele respondeu: "Quem casou antes de mim, não me avisou; quem casou depois de mim, não me perguntou"... Aliçar, sua filha caçula, lembrou-se de outra: Como é sabido, os muçulmanos acreditam que, quando morrerem, receberão de Deus um terreno no Jardim do Éden ou Paraíso. Então, quando ele visitava seus clientes muçulmanos, chegava dizendo "Oi, estou vendendo um terreno no Paraíso, está interessado?".
Eu tive um convívio com meu avô Yourghaki enquanto ele era muito ativo. Ele me colocava em seu colo, eu o ajudava a apertar o fumo do cachimbo, me ensinava gamão, xadrez, e conversávamos muito. Quando ele falava, usava um tom de dar conselho. Era católico, havia sido coroinha, mencionava a importância de se conhecer a religião, embora não fosse um frequentador assíduo da igreja. Curiosamente, ele falava pouco da Síria, do Líbano. Ele quis voltar por muito tempo, e não encontrou oportunidade. Em 1986, fui à Síria e levei uma carta para seu irmão Abdallah, que veio a falecer pouco tempo depois. Em 1995 fez a única viagem à Síria e ao Líbano, com minha avó. Retornou ao Brasil, e creio que não teve mais a ambição de ir para lá. Havia estabelecido sua vida aqui no Brasil. Naturalizou-se brasileiro, ele e toda a família, diferentemente do meu pai, que viveu como sírio residente no Brasil até a morte.
Yourghaki isolou-se em sua velhice, que chegou acompanhada de uma surdez que ele relutou em tratar e agravou-se. Nesse período, a comunicação com os outros ficou bastante comprometida. Ele lia seus livros em árabe, livros que trocava com amigos, com meu pai,, almoçava sempre por volta das 13h e jogava baralho, religiosamente às 18h, de preferência ele e minha avó Laurice contra outra dupla. Precisava jogar tranca, precisava ganhar. Quando fazia dupla com alguém, era quase certo que culparia essa alguém caso perdesse a partida. 

Sua saúde, sempre invejável, ao menos até os últimos anos, fez com que ele visse vários amigos - e companheiros de tranca - partirem, e então começou a dizer coisas como: "o que fiz para Deus, para que ele me esquecesse aqui? Já deu o meu tempo!". A idade exata dele não era sabida, por perda de documentação, mas assumimos que ele nasceu em 1924 e adotamos a data da fundação do partido dele como a do aniversário, 16 de novembro. Em seu velório, dezenas de amigos vieram prestar homenagens. Seu Jorge era um ícone de um homem que migrou com sua cultura e seu modo de ver a vida, venceu batalhas, mas sua luta era para ficar, para se estabelecer, e não voltar mais. Rompeu, ao menos em parte, com o passado, para poder ter um futuro, pois de outra forma talvez isso não fosse possível. As saudades que sentiremos refletem a falta que esse homem fará nas nossas vidas, mas também a falta de um símbolo de união familiar que combateu inúmeras adversidades até chegar aonde chegou. Seremos fortes como ele? Seremos fortes sem ele? 

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Àquele que não estava lá


Faz muito tempo que não escrevo aqui. Faz tempo que não encontro motivações em mim, justificativas fortes o suficiente para tal. Hoje, encontrei a ausência. Parece que eu gosto de escrever sobre as saudades e ausências. Mas tinha me esquecido que ela pode ocorrer independentemente da morte do sujeito.

Eu conheci cara muito legal. Extremamente doce, extremamente justo. Absurdamente simpático  e comunicativo. Capaz de cativar qualquer pessoa que quisesse com um "oi". Fomos muito companheiros, talvez até tenhamos suprido algumas ausências um do outro. Bem, esse cara pensa que se encontrou e que está pronto. Seu olhar mostra uma certeza ausente. Tem vergonha hoje do que era ontem. Sente-se seguro apenas quando escondido na montanha de marcas, símbolos, signos, bandeiras e notas de rodapé que criou para substituí-lo.

É uma pena. 

Sempre sentirei saudades. Um tipo de saudades muito parecida com a que sentimos dos que se foram mesmo. E minha esperança é essa, ele está por ai, em algum lugar.
Mas ok, posso conviver com seu substituto, que de vez em nunca me mostra, por uma pequena brecha no fundo do brilho dos olhos, o outro, escondido à espera de um mundo onde ele possa voltar a brincar, sem dever nada a ninguém, muito menos a ele mesmo.

quarta-feira, 13 de março de 2013

A Terra Natal


Os últimos serão os primeiros, diz algum trecho de algum texto santo que não pretendo ler novamente. Os últimos dez anos foram o fim de uma fase. Ok, quaisquer períodos são início e fim de qualquer coisa, neste mundo hiperpopuloso. Mas que catzo, o blog, abandonado ou não, é meu, e eu estou falando dos MEUS últimos dez anos. Eles excruciaram uma parte das minhas crenças, com as quais eu pensava formar um caráter inabalável, o MEU caráter inabalável. Que era vidro e se quebrou. Um cara analógico num mundo digital? Eu nunca pensei que fosse, mas as âncoras que prendiam minha segurança eram assim, âncoras, feitas de ferro fundido, correntes, ganchos que se enfiavam sob pedras submersas há um porrilhão de anos. Um barco a deriva, um grande bote sem remos, flotando, flanando, captando como antena todas as ondas, e ameaçando, sem segurança, mudar de direção. Um bote flutuando numa piscina do tamanho do Atlântico, sem a possível ideia de qual direção tomar. Até ai, beleza, a maioria é assim, por mais que a fachada seja de pedra, o telhado é de vidro. Adoro ver poços de segurança perderem o rebolado nas intempéries ou nos acidentes, que nos lembram que somos feitos de carne, a mesma merda de que é feita a vaca que morre no seu prato ou o pulguento travestido de brinquedo que servirá de alegria da casa quando seus filhos forem cuidar de seus narizes e o sexo for mais esporádico ainda, quando não inexistente.
Quase todo este blog sempre volta a dois momentos, as duas mortes do meu pai. A primeira, aos meus 24 anos, quando ele saiu pela porta tentando se encontrar, tentando voltar a se reconhecer e, de certa forma, morreu simbolicamente, talvez para mim enquanto porto seguro, talvez para ele mesmo, com sua imagem de líder da família; a segunda, quando ele fisicamente morreu, e ai tive a certeza de que estaria a deriva até descobrir um modo de navegar sozinho.
Um cara analógico? Ah, sim, por mais que eu relute, todos os meus símbolos eram analógicos, o despertador, o vinil e a campainha. Sempre fui o neófilo, sempre tivemos acesso ao novo, gadgets que nos faziam felizes. Videotexto no MSX, pouca gente vai saber do que falo. Mesmo assim, meus signos eram o neon e seu brilho químico; o carro sem cinto (e a liberdade análoga); a fita cassete e sua linearidade narrativa e autoral, sem random, shuffle ou repeat, mesmo que construída de fragmentos de outros autores; e a terra natal.
De todos os símbolos acima, e de outros que não listo agora, a terra natal foi o que mais morreu. A terra natal era única. Seu cheiro não era globalizável. Sua estrutura era de difícil cópia. Seus produtos eram únicos. Suas memórias eram inabaláveis. A terra natal era a possibilidade de voltar e de, em voltando, sentir. E de, em sentindo, se re-conectar, se re-fortalecer. O universo analógico tinha dessas coisas. O vocabulário digital chapou tudo. A melhor fábrica de quase qualquer coisa fica na China. Duendes de um dólar por dia ou menos dão vazão aos desejos de todos os bilhões de humanos, ou aos desejos dos milhões que podem pagar para ter e, portanto, ser. O passado não é mais algo de museu ou de colecionadores, ele vem revigorado e desperta lembranças e amores colegiais agora, numa rede social qualquer. Agora, e já, ela acessa o seu look anos 80 e o carinha que a paquerava, e o professor que odiava, e a miséria ou alegria que era viver na casa em que  vivia, com quem vivia. Em um segundo, as memórias estão ai, e trazem as emoções consigo. A terra natal era o momento de abrir a caixa de fotos, o ouvir a história do avô, mesmo que repetida, o sorver da sopa de amor servida no inverno aconchegante. A terra natal foi trocada pelo desapego.
Não quero misturar tudo, mas acho que não haverá outro jeito, pois tudo hoje veio misturado: A minha teoria é a de que a terra natal não morreu ainda, apenas e tão somente porque é um sensacional argumento de vendas. É "A" promessa de felicidade aos moldes de quando você era bebê e alguém corria para evitar que você caísse ou enfiasse os dedos na tomada. "#tamojunto", conectividade, rede, amor e chocolates. Sempre o aconchego como promessa. Mas, se o novo mundo matou a terra natal, onde buscar esse aconchego? E, mais do que isso, a terra natal era a terra de pais despóticos, mães submissas, direitismo político, casamento arranjado entre aqueles de mesma religião e etnia, e homofobia, ou melhor, homossexualidade "nem existia". O lar do aconchego, onde os negócios passavam de pai pra filho e as mães ensinavam a cozinhar e a cerzir, não suportava as mudanças, posto justamente que estas destruíam o cerne, a alma daquilo a que estou chamando terra natal.
Haverá "permacultura" onde tudo isso caiba na mesma caixa?
Sim, no admirável mundo novo, onde cada ser humano é uma ilha com liberdades que a velha vila e seus preconceitos não permitiam, tentamos criar nossas novas famílias, buscando ressignificar e fazer ressurgir assim a terra natal. Perdemos muito do tradicional e milenarmente humano: desenraizamos, não lidamos mais com a terra e seus frutos, e por isso dependemos excessivamente daquele meio de subsistência, sub existência, chamado trabalho/emprego; os ritos do clã foram quebrados, e a palavra confiança, no sentido daquela realidade da velha vila, não existe da mesma forma; os velhos signos de poder foram-se embora, mas com eles fragilizaram-se algumas questões éticas e morais, uma vez que não há compromisso profundo entre o Eu e a velha vila ou terra natal. Pelo contrário, há a América, a terra das oportunidades, onde o empenho pessoal e desmedido levará ao sucesso individual. E escolheremos alguns amigos para partilhar tal sucesso.
Mas, ao proclamarmos a máxima "amigos são a família que escolhemos", esquecemos de lembrar que os laços são mais etéreos, na maior parte dos casos. Ainda estamos engatinhando nessa terra nova, que vem substituir a terra natal, e sua construção de significados, e a chance de recriarmos réplicas mal feitas daquilo que vivemos é enorme.
Não vou fazer isso de fechar este texto com a conformista frase "a terra natal está dentro de nós". Não posso, pois dizer isso é ser mais cristão do que sou, admitindo que o lado negativo da desconstrução possa ficar impune. Mas acho que sim, está lá dentro de cada um, como modelo de certo e de errado. Em algum momento resgataremos esse molde e aplicaremos em outra coisa, atribuindo assim o sentido de resgate, recarga, religação. Por hora, tudo o que podemos fazer é dormir com um olho aberto, pois estamos em guerra, a velha vila está lutando pelo direito de existir.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O Jogo do Contrário ou O Terrorista Malévolo no Mali e o Herói Rebelde na Síria são a mesma pessoa?



Postagem Original 18/01/2013
Por Babel Hajjar
Grupo de Estudos Geopolíticos do Oriente Médio
Grupo de Pesquisa em Psicologia Política e Multiculturalismo da EACH-USP


Daqui para frente, os videogames serão cada vez mais complicados, ao menos aqueles cujos temas sejam relativos ao Oriente Médio (como foi o caso do videogame sobre o atual conflito na Síria que foi rejeitado pela Apple, noticiado em http://rt.com/news/apple-rejects-endgame-syria-644/). Imagine seu avatar (o personagem que você “veste” em um jogo) sendo um Inglês, como o 007 James Bond, com acesso a armamentos variados e habilidades como escalar prédios e saltar entre telhados. Você dá início a sua busca por terroristas islâmicos no Mali, onde ocidentais da indústria de exploração de gás foram feitos reféns por grupos ligados à Al Qaeda. Seu game identifica os agentes do terror. Se esse terrorista do Mali (ou NO Mali, já que sabemos que há enormes chances desse cara ter sido educado numa "Madrassi" islâmica fundamentalista da Arábia Saudita, do Catar, Bahrein ou outro califado ou emirado islâmico fundamentalista) resolve mudar sua "jihad" para a Síria, para por fim à vida do presidente Bashar Assad, bem como a sua etnia ou grupo religioso Alauita, ou aos cristãos, ou aos islâmicos de outras linhas que não a sua e de seu Alá...
Fosse esse o caso, o jogador, nosso Bond, ficaria completamente perdido. Pois o mesmo terrorista que cria o horror no Mali, cria o horror na Síria. Porém, neste último caso, o ocidente não se condói, porque a vida humana de sírios nada significa aos homens e mulheres ocidentais. "Eles sempre se explodiram", dirão os homens e mulheres do meu tempo, muito acostumados a uma ultrajante narrativa sobre o que é ser árabe/muçulmano/oriental (muito bem traduzida no excepcional "Orientalismo" de Edward Said), constantemente martelada pela mídia, quer sejam jornais, telejornais, revistas, cinema, videogames e qualquer outro veículo que sirva à criação de estereótipos sobre o ser humano que vive "naquelas regiões" (ou não-regiões, parafraseando o conceito de Zigmunt Bauman de não-lugar, o lugar que está fora de nosso mapa mental e que, portanto, não consideramos como “parte do trajeto” da nossa vida). O olhar ocidental, que se declara berço da civilização e que se arroga ser o único olhar verdadeiro capaz de entender e conceber o mundo, esse olhar derramará lágrimas pelos ocidentais que foram mortos ou feitos reféns no Mali. Mas quase não tomará ciência dos ataques à universidade de arquitetura e belas artes de Alepo, que levou a vida de mais de centena de estudantes, que ali realizavam as provas finais do período; ou às chacinas promovidas em praça pública contra sunitas que apoiam o governo atual sírio, sangrados até a morte ou mesmo decapitados com pequenas facas.
O olho do ocidente não ficará vermelho de raiva pelas mortes de pessoas de todas as etnias e religiões, que durante 50 anos conviveram harmoniosamente em um país que não viu, nesse período, nenhuma guerra dentro de seu território, fora a tomada das colinas do Golã por Israel em 1967. Muito pelo contrário, o olhar do Ocidente sobre a Síria e sobre aqueles que promovem o terror na Síria é apoiador, incentivador, reconhecedor. A França tem participado estrategicamente da guerra na Síria. A Turquia cedeu sua fronteira para a entrada de jihads que queiram combater na Síria. Os EUA forneceram, como sempre, armas; O Qatar comprou o Hamas, que traiu a Síria, o Irã e, possivelmente, minou fortemente a resistência laica palestina; a Arábia Saudita fornece a alma corrompida de seus zumbis islamitas, que nunca foram estimulados a raciocinar fora de uma visão completamente equivocada do islã e das palavras religiosas do Alcorão. O Ocidente cria a narrativa que quiser. Acaba com o Iraque em nome de armas de destruição em massa que não existiram, E com o Afeganistão em nome das torres gêmeas, e a Líbia em nome do "direito de proteger" seus próprios interesses. E agora chegou a vez da Síria. Chorem, ocidentais, pelo sangue daqueles a quem consideram humanos no Mali. Mas saibam que a Síria foi criadora e guardiã final de todas as culturas e ciências da antiguidade, que possibilitaram toda a história ocidental. A Síria ensinou a Europa a filosofar e a fazer aquedutos e álgebra. A Síria, reunindo saberes dos povos mais antigos, como Sumérios, Acádios, Assírios, Babilônicos, Elamitas, Egípcios antigos, Arameus, Filisteus e muitos outros, já possuía escrita, leis e irrigação enquanto a Europa ainda se vestia com peles de animais e se alimentava por meio de caça e extrativismo. Damasco, que hoje sofre com o terror de grupos islâmicos radicais cuja origem e crescimento foram estimulados pelo Ocidente, é a cidade de ocupação contínua mais antiga do mundo, talvez 6.000 anos, o que me permite repetir uma afirmação ouvida de um alto funcionário do governo sírio: todo ser humano possui duas nacionalidades: a sua, e a síria. 
O Ocidente ainda perceberá o quão pobres são suas narrativas sobre o mundo exterior, e consequentemente sobre seu próprio mundo. Perceberá que a autopromoção, o merchandising que faz sobre si mesmo e sobre seus feitos e seu estilo de vida, o discurso baseado em si mesmo, (o "Ethos" de Aristóteles) em algum momento não mais terá efeito. O produto “Ocidente”, da forma como o conhecemos, entrou no que os marqueteiros chamam de “declínio”. Cada vez menos comprado, ou então só é comprado por não possuir substituto. Mas tem muita gente pensando em como substituir os sistemas hegemônicos vigentes. Não é tarefa para hoje ou amanhã, mas em tempos de sustentabilidade, biodiversidade e seus desdobramentos, sabemos tratar-se de questão de tempo para um novo poder assumir. A Vida pode ser um videogame melhor.


segunda-feira, 8 de outubro de 2012

É engraçado conhecer uma história por via oral, e nunca ter lido nada a respeito. Segue matéria de Robert Fisk e suas posições controversas no caso Síria, porém com uma breve passagem pela história da " tomada" de Alexandretta pelos turcos, no meio da 2a guerra (na verdade, pelo que o Fisk conta, a cidade foi dada pelos Franceses para que a Turquia apoiasse os aliados, o que não ocorreu). Essa era a cidade de origem dos meus avós maternos, que foram obrigados a migrar, meu avô para Lataquia, minha avó para Beirute. Pequenas diásporas sobre as quais ninguém fica sabendo.

domingo, 26 de agosto de 2012

Os Aniversários de Hanna Hajjar

Hanna Hajjar nasceu, provavelmente, no primeiro dia de janeiro de 1937, na aldeia de Bedada, próxima ao município de Safita, Estado de Tartous, na Síria. Digo provavelmente, pois seu documento de identidade indicava 1938 e, na Síria, assim como no Brasil, não era hábito registrar as pessoas imediatamente após o nascimento, como ocorre hoje.
Isso fazia com que as festas de Ano Novo na minha casa fossem excepcionalmente fartas e cheias de amigos da família e do Partido Nacional Social Sírio, do qual falei em textos anteriores neste blog. Por conta desse partido, contrário ao governo Sírio e que foi lá proibido, que meu pai imigrou para o Brasil. Foi uma das grandes paixões de Hanna. Ele presidiu o partido por um tempo, e foi responsável por boa parte de sua da atividade política aqui no Brasil. No final da década de 1980, Hanna abandonou o PNSS e, em paralelo com outras crises pessoais e momentos financeiros ruins, começou a colecionar pensamentos e ações que o enfraqueceram moralmente. Após ter sido cercado por tantos amigos e colegas, Hanna sentia-se sozinho. Essa solidão foi expressa no Réveillon de 1987. Eu acabara de me formar no ensino médio, e havia lotado a casa de praia, onde comemoramos várias vezes o Ano Novo, com amigos meus. Naquele ano, não havia nenhum dos amigos do meu pai. Em dado momento, Hanna se irritou com a bagunça que fazíamos e gritou comigo, dizendo: "É o MEU aniversário!". Eu, obviamente, me ofendi, e disse a ele que, se queria amigos, deveria tê-los convidado. 
Há algum tempo vejo que meu telefone não toca. Questiono-me se isso não é decorrência de meu enfraquecimento moral. Júlia e Rejane têm outros compromissos, aos quais nem sempre sou convidado. Em alguns não quero mesmo ir, talvez por acreditar que o meu "enfraquecimento moral" seja perceptível em meu olhar, em minha transpiração, ou nas minhas atitudes. Mais uma vez, ponto para o cara lá de cima. Está mais do que provado que me pareço muito com o Hanna, e que minha vida segue curso semelhante, como o inexorável tracejado de um rio. Esse rio necessita, urgentemente, de barragens, desvios e transposições. Serei capaz de construí-las?
No último ano de sua vida, no dia do meu aniversário, eu iria reunir alguns amigos em casa. Meu pai apareceu no começo da noite no meu prédio, pediu para eu descer. Havia encomendado algumas esfihas e outras coisas para a minha festa. Convidei-o para subir, mas ele estava atrasado. Falou-me que andava em contato com o "núcleo duro" do antigo PNSS, que voltara a escrever e que, naquela noite, iria se encontrar com o poeta Youssef Mousmar e outros amigos do partido. Estava muito animado. Talvez tenha sido o melhor presente que recebi dele em muitos anos.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Somos fanáticos?

Desde cedo, fui apresentado a uma realidade ligada diretamente ao motivo da imigração de meus pais, e consequentemente de meu nascimento ter se dado no Brasil, e não na Síria ou Líbano, os países de origem dos meus pais. A questão estava ligada à insatisfação do povo árabe com a política internacional que regia as relações entre o mundo e o oriente médio. Explicaram-me que os árabes, de quaisquer países, tinham em Israel seu inimigo comum. Israel havia sido "plantado" no seio de uma sociedade outrora chamada de Palestina, que por sua vez fazia parte do que os correligionários dos meus pais chamavam de "Grande Síria". Fui doutrinado a ver uma realidade que poucos viam, e que muitos chamariam de mania de perseguição: O ocidente em geral não gostava dos árabes, e ainda apoiava seu inimigo, Israel e os Sionistas. Essa doutrinação se deu em casa mesmo, pela leitura diária das notícias internacionais sobre o Oriente Médio, pela percepção de que palavras como "milicianos", "oposicionistas", "guerrilheiros" e "terroristas" poderiam ser utilizadas pelos jornais para tentar influenciar a opinião pública em prol desta ou daquela causa,
Assim, um atendado engendrado pela Al Qaeda tem peso de "terrorismo" no Iraque pós guerra, mas se ocorrer na Síria de hoje pode receber status de "oposição legítima ao regime". Da mesma forma, palestinos que lutam desde 1948 pelo direito de ter um país, retornar a suas terras roubadas pelos fundadores do atual governo de Israel, são chamados de "terroristas", pois essa palavra indica à opinião pública que atos provenientes de palestinos não possuem legitimidade, e têm apenas a função de "criar terror". A causa do "guerrilheiro", ou do "oposicionista" pode ser legítima, a causa do "terrorista" nunca o é.
Ainda sobre os caminhos da minha doutrinação, cresci em meio a reuniões de família, onde sempre havia a presença de "tios" e "primos" que não eram familiares, mas eram imigrantes como nós, e  pelas reuniões de cunho político que constantemente ocorriam na minha casa, reunindo árabes cristãos ortodoxos e maronitas, muçulmanos sunitas e xiitas, Palestinos, Libaneses e Sírios, todos reunidos compartilhando a ideia de que o melhor governo para um país árabe seria um governo laico. 
Da década de 70 até hoje, o que observei foi um acirramento das diferenças, ao mesmo tempo que percebi uma midia muito mais preocupada em vender jornais e estar alinhada com uma tendência,  do que em correr atrás da verdade. Meus amigos não árabes identificam-me como um crente em teorias da conspiração. Eu mesmo, conversando muitas vezes com meu irmão, me questiono se seria uma visão fanática e enviesada essa nossa. Afinal, o jogo geopolítico é, na maioria das vezes, grande demais para ser algo crível. No entanto, manter-me com um ou muitos pés atrás faz parte de quem eu sou. Nunca vou perder minha doutrinação. Posso racionalizar. Posso quebrar preconceitos. Mas sempre questionarei a linha oficial, e por oficial leia-se Ocidental, para o trato com o Oriente Médio, porque é isso que faço. Em minha defesa, eu digo que conspirações existem por toda a parte. Oligopólios e monopólios são conspirações, corrupção nos governos são conspirações. O movimento que prometeu a palestina aos palestinos e a Sionistas foi uma manobra. O que chamamos de Geopolítica, a manipulação das relações entre países, visando favorecer uma ou algumas posições, em detrimento de outras, não deixa de ser um tipo de manipulação. Sim, somos fanáticos, somos fãs incondicionais de nossos ideais.