segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Somos todos Vendedores


Como muitos, passei boa parte da minha adolescência brigando com meu pai. Um dos papos que mais levávamos era sobre o que eu faria da minha vida. Eu queria ser publicitário, fazer minha arte e criatividade (!) render dinheiro. Meu pai dizia que o melhor era ser dono do seu próprio negócio e, no universo dele, esse negócio era uma loja de roupas no Brás. Diploma era legal para que nos respeitassem, para por na parede.
Nas décadas de 1970 e 1980, o Brás já era um pólo de vendas de confecções, dominado pela colônia sírio-libanesa. O dinheiro do Brás e da 25 de março sustentou o estudo de muitos médicos, engenheiros e advogados da colônia árabe paulistana. Coreanos eram raros, chineses nem sonhavam em dominar o mundo fora de suas muralhas. Meu pai teve uma loja na rua Barão de Ladário, a FAFRA Jeans (O nome foi herdado do antigo dono, o Sr. FArid FRAnsisco de algo). Naquele tempo eu sonhava em ser publicitário, era fã do Washington Olivetto, achava que tinha inteligência, criatividade e o mundo a conquistar. Meu pai me jogava uns baldes de água fria, pois afinal a vida havia lhe mostrado o quão duro era sonhar. E talvez ele se visse em meu lugar, com 18, 20 anos, se achando o máximo e saindo de casa para conquistar a Síria e o Mundo.
Mas a principal questão de nossas discussões era a forma de sustento que ele escolhera, ou ao menos caíra nela, e que eu tinha tremenda repulsa: a venda, o comércio, a profissão de vendedor. Na minha concepção adolescente, vender era convencer pessoas, que normalmente não queriam ser convencidas, de levar coisas de que nem sempre precisavam, por um preço normalmente acima do que valiam. Na minha forma distorcida ou hiperrealista de enxergar a coisa, o lucro era quase um roubo, um dinheiro ganho pela incapacidade do comprador em localizar o dono da mercadoria, comprando portanto de um intermediário, que ficava com boa parte dos ganhos que deveriam ser de quem pagou pelo produto.
Seu Hanna, meu pai, achava que eu deveria vender de todo jeito, e eu queria ficar na escrivaninha, na estratégia, no planejamento, na criação. Em determinada época, eu fazia a faculdade e, como estava sem emprego, ia ajudar meu pai. Mas nada funcionava entre nós, ele queria fazer produtos baratos em grande quantidade, eu queria produzir "moda", roupas que meus amigos usassem e achassem boas.
Hoje, muita água passou por debaixo da ponte, e eu sou um vendedor. Sempre fui, na verdade. E, sinto ter que dizer isso a você, mas todos somos, e ai de nós se recusarmos esse chamado. Somos vendedores de nosso trabalho em qualquer empresa e ramo de atividade que escolhamos. Somos vendedores da nossa competência, não só aquela competência adquirida com o diploma, mas também a competência em expor adequadamente nossas idéias, convencer os demais, saber viver em sociedade, ser bem sucedido em conviver. De nada adianta inventarmos um novo tipo de roda, se não temos a habilidade de tirar proveito dessa invenção, ou, o que é pior, além de sermos inaptos, darmos a oportunidade que outros conquistem coisas a partir de nossos feitos. Somos todos vendedores, sempre. Porém, alguns vendem melhor do que outros. Seu Hanna, mais uma vez, estava certo.



Um comentário:

Rejane disse...

Eu adorei e concordo, muito!!!