terça-feira, 3 de junho de 2008

De triciclo na Rua Oriente

Nasci e fui criado nos bairros do Pari e no Brás, onde meu pai e meu avó tiveram lojas, em um tempo em que a rua Oriente era povoada em sua maioria por imigrantes e descendentes de árabes. Meus avós moraram em São Vicente desdea chegada ao Brasil, no fim da década de 50, e mudaram-se para São Paulo na década seguinte. Meu pai chegou ao Brasil também nos anos 50, e foi procurar os outros Hajjar, especialmente seu tio Messias Pedreiro (Pedreiro é a tradução de Hajjar). Encontrou-os em Anápolis, no Estado de Goiás. Morou um tempo por lá, herdando o hábito do arroz, feijão, banana e pimenta... e acabou também vindo morar em São Paulo. Conhecia meu avô Yourghaki, e começou o processo de "corte" à minha mãe Claude. Nasci em 1970, aos 8 de junho. Um pequeno, comum e escondido escândalo, afinal nasci "de 7 meses"... se meu avô soubesse não ficaria feliz... Inicialmente moramos em um sobrado pequeno no Brás. Meus avós moravam na Rua Capitão Mor Passos, e boas lembranças da infância tenho daquela casa.

Passei boa parte da minha infância entre os números 13 e 53 da rua Oriente, respectivamente a loja do meu pai, que durou cerca de 4 anos, e do meu avô, que durou bem mais. Meu pai comerciava e às vezes se arriscava na produção; meu avô materno era alfaiate no Líbano, fazia ternos, calças sociais, camisas, mas também vendia produtos comprados. E como os tempos eram outros, eu vivia solto na calçada da oriente com meu velotrol verde, um triciclo plástico que o uso e o peso fez partir ao meio. Eu era conhecido de todos os vizinhos. Me lembro especialm ente do seu Oswaldo, o dono de uma banca de jornais que ficava no caminho entre as duas lojas. Eu sentava em frente à banca, e ele me dava gibis pra ler de graça, e me contava histórias. Eu acho que aprendi a ler com os gibis, bem cedo, antes dos 5 anos. O trato era eu não amassar as revistinhas. As que eu amassava ele levava ao meu avô, que as comprava. Meu avô sempre foi conhecido como "Bahil" (avarento) pelos amigos, e não era muito fácil os meus tios, adolescentes, conseguirem algum trocado para o fim-de-semana, mas comigo era muito mão aberta. Um sonho recorrente na época: eu chegava à porta da loja do meu avô no meu velotrol verde, e quando ia subir no degrau (o piso das lojas na R. Oriente, ao menos as construções mais antigas, ficam cerca de 30 cm acima do nível da calçada - isso amenizava as enchetes que costumavam ocorrer com frequência) eu parava, via meu avô sentado ao fundo em sua escrivaninha, e a loja toda começava a subir, aos saltos, bem na minha frente.

Um dos vizinhos do meu percurso entre os números 13 e 53 da rua Oriente era um velho árabe de bigode cheio e sua senhora. Costumava me chamar para ver uma estatueta de buda que ele guardava em um pote de moedas, e dizia que eu deveria esfregar a barriga do buda e fazer um pedido. E tinha uma amiga minha, um pouco mais velha do que eu, na loja seguinte à do meu avô, com quem eu acabava me permitindo ir mais longe pela Oriente, ao menos até o final da quadra. Catávamos bitucas de cigarro no chão e fingíamos fumar e falar árabe, como os adultos ao nosso redor faziam. E dançávamos, imitando nossa infância.

Fui crescendo e avançando solitário as quadras percorridas na Oriente. Meu pai voltou a ter loja no Brás, na rua Barão de Ladário, travessa bem próxima da Oriente de minha infância. Mas era consenso entre os dois, meu pai e meu avô materno, que viajar e cobrir as "praças", levando amostras de mercadorias dos outros, era o melhor negócio, pois administrar loja levava tempo e dinheiro, ao passo que ser vendedor era só começar.

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